Os "clientes"
Agora que Frank Furedi se tornou conhecido na blogoESfera, graças ao artigo de MFMónica no Mil Folhas referido numa entrada anterior, vale a pena explorar a sua página para conhecer um pouco melhor o sociólogo.
Entre o material mais "leve", os artigos, há alguns publicados na imprensa corrente. Um deles chamou-me a atenção pelo título, 'They expect me to make life easier', publicado no "Times Higher Education Supplement de 30 de Abril de 2004 (pp. 2).
FFuredi explora a problemática da mudança da relação dos estudantes com o Ensino Superior numa lógica nova em que as instituições competem umas com as outras pelos alunos. O que emerge é uma tensão imediata entre a lógica do "cliente" pagante que quer ser bem "servido" hoje, nomeadamente a nível das notas, e a lógica do professor, que tenta levar o aluno a aprender a aprender e lhe exige trabalho, numa estratégia que visa o futuro. Como se sai deste "imbróglio"? Como FFuredi, que não dá receitas milagrosas, a minha resposta passa pela reflexão pessoal sobre estas matérias, com a contribuição da experiência que vou acumulando e das minhas perplexidades pessoais perante muitas situações que vivo no dia a dia de uma instituição de Ensino Superior. Passa também pela reflexão em grupo que a blogoESfera representa. É para isso que mantenho este blogue.
Deixo aqui um citação de Furedi, que me parece ser a mais relevante do curto artigo citado para suscitar discussão:
[...]
What students gain from their experience at university is in part influenced by the manner in which they have entered higher education. In previous times, potential students often had to struggle to get into a university. Gaining a place was regarded as a privilege that required considerable effort and energy. In such an environment, students had to compete and stretch themselves to demonstrate their worth to their future university. Today, this process has been reversed. It is not the student but the university that has to prove itself to potential customers. It may not be the case at Oxford University, but many school-leavers know that there is a university place waiting for them if they want it.
When gaining a place in a university is regarded as routine and as requiring only normal effort, the attitude of the future generation of undergraduates alters. The creative tension and the challenge of meeting the demanding expectations of a university help produce students with an orientation towards studying that is different from the "you are here to service me" mind-set that often prevails on campuses today. Individuals who have not been challenged to prove themselves worthy of universities are unlikely to embrace the intellectual ethos and idealism usually associated with the experience of higher education. Instead, they will adopt the functional and instrumental values that prevail in the market.
[...]
Comentário(s)
Gostei muito deste artigo de Furedi. Aliás, o site dele tem muitos outros artigos de interesse sobre a universidade. Destaco um outro excerto:
A growing sense of intellectual complacency is the inexorable outcome of the replacement of the teacher-student relationship with the model of the service provider and customer.
Unfortunately, this model goes against the fundamental premise of an academic education. From the standpoint of service providers, the customer is always right. It is not their job to question or criticise the tastes and values of potential customers. By contrast, academics are often in the business of educating their students' tastes and encouraging them to question their values. Indeed, one of the most distinct and significant dimensions of academic and intellectual activity is that it does not often give customers what they want. Academic pedagogy does not provide the customer with a clearly defined product. It does not seek to peddle what the customer wants but attempts to provide what the student needs. That is why forcing universities to prove themselves to their customers fundamentally contradicts the ethos of academic education.
A perspectiva crítica de Furedi é sobretudo relevante, porque, sem cair em nostalgias e conservadorismos, chama a atenção para o reverso da medalha desta tendência crescente para a mercantilização do ES, para a prevalência de mentalidades managerialistas, para a obsessão pelas comissões de avaliação, etc. Também vale a pena ler, a propósito, o artigo dele "The new Chief Inquisitor on Campus". A questão é mesmo a de saber que soluções / atitudes adoptar para se evitar cair nesses extremos perigosos para que Furedi nos alerta - sobretudo num meio académico tradicionalmente conservador e imobilista como o nosso, em que um número crescente de instituições estagnadas e medíocres se debate com a falta de alunos. Facilitar (ainda) mais as coisas e vender "banha da cobra" torna-se, de facto, uma tentação muito grande, sem alternativas à vista...
Posted by: DK | abril 17, 2005 02:24 PM
A tentação para o facilitismo é realmente muito elevada no actual contexto português, nomeadamente tendo em conta as regras do actual sistema de financiamento. Um exemplo: recentemente, lá para as bandas da minha tasca, o Conselho Científico decidiu fazer uma estimativa do número de lugares de estágio escolar que os potenciais alunos poderiam ocupar e solicitar a reserva desses lugares à DREN. Numa ocasião em que o sistema regular de ensino simplesmente não comporta mais candidatos, haveria que fazer um esforço para providenciar um muito menor lugares de estágio educacional, seleccionando escolas e orientadores que providenciassem um estágio de qualidade. Implicaria, igualmente, realizar uma selecção rigorosa dos alunos que poderia passar pela apreciação dos seus resultados académicos, mas também por uma entrevista na qual se poderia avaliar outro tipo de variáveis. No presente momento importa formar um número muito menor de professores e aumentar muito a exigência e a qualidade do estágio. Qual quê! Estágio para toda a gente, pessoal. É dinheiro a entrar...
Posted by: PJ | abril 17, 2005 04:20 PM
É, PJ, é impressionante! Aproveito para contar um outro episódio relacionado com este assunto. Dizia-me recentemente um prof. de línguas da minha "tasca" de letras que, nos últimos anos, tem vindo a inflaccionar as notas dos seus alunos, para lhes proporcinar assim mais oportunidades de emprego no "pós-estágio" - onde antigamente daria um 14, agora dá um 17, p. ex.... O argumento: se vamos ser, como até há uns anos, mais exigentes nas classificações do que a generalidade das outras escolas (designadamente as Escolas Sups. de Educação), estaremos a prejudicar os nossos alunos, que se vêem assim preteridos na busca de lugar nas escolas. E por que é que não havemos então de ajudar os alunos a obter emprego?...
Portanto, caro PJ, completo o teu raciocínio: é não só estágio para toda a gente, como ainda boas notas para toda a gente, pessoal!
E assim vamos alegremente... (até quando é que a corda aguentará, pergunto-me)
Posted by: DK | abril 17, 2005 04:37 PM
Relativamente ao artigo "The new Chief inquisitor on campus" sugerido pela DK, é de facto um alerta contundente para os perigos insidiosos que uma certa ideia de PC académico (politicamente correcto) tende a impôr ao longo do tempo. Mais, é uma forma de ideias externas à própria universidade, no sentido de provenientes de um poder político controlador, se introduzirem na academia. Daí que a única defesa que existe seja uma discussão franca entre todos que partilhe informação e ajude a construir um verdadeiro espírito académico, livre e pessoal. Esse objectivo é grandemente facilitado pela composição pluridisciplinar de grupos espontaneamente formados, como o da blogoESfera. Só isso compensa grandemente o tempo que se "perde" por aqui.
Posted by: MJMatos | abril 17, 2005 06:01 PM
O comentário da DK... as notas!
Onde antes se saía com..., hoje sai-se com...
Pois é..
e esse espírito de eventual inflacção de notas (que me parece um risco desde a base, isto é, se pensar na tentação de subir o 9 a 10, para baixar os níveis de insucesso ou se a qualidade do professor fôr medida pelas «passagens» de ano) tem consequências desastrosas a todos os níveis - até porque, se a nota de licenciatura se desacredita, numa dada instituição, face aos empregadores, pode deixar de ser critério...
Ou seja, em última instância e levando ao extremo, «aquela» organização torna-se conhecida pela "fragilidade" das classificações dos seus cursados - aliás, é isto que preside ao facto de uma classificação final de 14 de um sítio ser considerada melhor que uma de 16 de um outro sítio.
Não quis dizer nomes mas estou a pensar em concretos. E que pode acontecer que as classificações finais se tornem irrelevantes para acesso ao emprego... pode?!
Posted by: LN | abril 17, 2005 07:18 PM
"pode acontecer que as classificações finais se tornem irrelevantes para acesso ao emprego... pode?!"
Nao sei se pode, mas devia.
Posted by: L. Aguiar-Conraria | abril 18, 2005 04:36 PM
Relativamente à questão das notas e do acesso ao emprego é necessário enfatizar que quando se fala de acesso à profissão docente ao nível dos ensinos básico e secundário do ensino oficial a média final de curso é o único factor de selecção. Daí que se verifique a inflação das notas que a DK referiu e, nalguns casos, a mudança de instituição formadora para aumentar a média final. Tanto quanto consigo saber nas Faculdades de Letras isso não acontece muito, mas o mesmo não se pode dizer da Faculdade de Ciências da UP. Ou seja, os poucos professores que se encontram a entrar no sistema de ensino não são os mais capazes mas os mais “espertos”. O panorama é francamente deprimente e assustador.
Posted by: PJ | abril 18, 2005 06:53 PM
Não era no acesso à profissão docente que eu estava a pensar quando comentei.
Quando se pensa em profissionais de saúde (pois...) na situação de aceder ao (primeiro) emprego, sabe-se que conta ter a habilitação (e cédula profissional). Ponto final.
Em concursos de acesso é que um dos critérios das grelhas costuma ser a classificação final do curso - um entre outros, que terá a ponderação que cada júri lhe atribuir. Talvez o facto de eu não "ligar" às classificações finais se prenda com a conjuntura específica desta área e com a experiência de que a nota de um cursado não «diz» sobre...
Posted by: LN | abril 20, 2005 02:29 AM