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Portugal português

Eu costumo perguntar às pessoas, quando a ocasião é a adequada, "quais são as duas partes do corpo mais usadas na tomada de decisões em Portugal?" A reacção é sempre de defesa, antecipando alguma brejeirice da minha parte. E eu passo a explicar: "são o cotovelo e o joelho; fazem-se as coisas por dor de cotovelo, mas em cima do joelho". Por muita piada que a coisa possa ter (terá mesmo?), prefiro a análise recente de José Gil ao "chico-espertismo", oscilando entre um discurso puramente filosófico e uma exemplificação retirada da política corrente, de que destacaria um excerto a puxar para a primeira forma (a segunda, evito, por estarmos em campanha eleitoral):

[...]
Lacan afirmava já que o laço social era essencialmente paranóico. A especificidade do laço português está no duplo plano em que circula: por detrás do circuito vislvel das relações entre os seres, a desconfiança suscita, no plano da visibilidade e do encontro com o outro, o seu contrário, a amabilidade dissimuladora, a amenidade do trato, a complacência mesmo relativamente a fraquezas manifestas. Esta manha é ainda uma manifestação do chico-espertismo. Simplesmente como os sinais vislveis do outro nos escondem tambem desconfiança e más intenções (por projecção do nosso próprio duplo plano, duplo par de olhos), a nossa desconfiança, a convicção de que o outro está sempre pronto a «passar-me uma rasteira» reforçam-se continuamente.
[...]
(op. cit., p. 36)

Este retrato devia fazer-nos reflectir sobre a imagem que damos de nós próprios. Recorda-me a fascinação que os holandeses tinham por uma tradução na sua língua de um livro de Rentes de Carvalho, intitulado "Com os holandeses" (publicado recentemente pela Quetzal Editores), em que o retrato cáustico tinha muito pouco de lisongeiro para quem, no fundo, era o povo anfitrião do autor. Não estou seguro é de que, nós próprios, nos reconheçamos neste retrato e de que "fascinação" seja o adjectivo adequado. Mas que deviamos meditar sobre o dito retrato, não tenho dúvidas.

José Gil (2009). Em busca da identidade. O desnorte, Relógio de Água (60 pp.)

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